Terça-feira, 14 de Março de 2017

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Numa altura em que faltam exactamente 2 meses para que o papa visite Portugal e o seu espectáculo maior que dá pelo nome de Fátima, com a lotação esgotada e os preços a fazerem corar de vergonha os administradores de outros espaços de culto e luxo, nada melhor do que trazer, de novo, para a ribalta este texto do poeta surrealista António José Forte, publicado no jornal “A Batalha” há 35 anos, aquando da visita de um outro papa ao mesmo espectáculo, em cena desde 1917 e que bons cobres e dividendos ideológicos tem proporcionado à troika formada pelo Estado, pelo Capital e pela Igreja, os três na sua santa missão de injectarem “esperança” entre os explorados.

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anel papal

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1. Ó Estado, mais uma vez podes limpar as mãos à parede do cu do papa, ficarás com as mãos mais brancas para os teus crimes. Ó partidos, da esquerda e da direita, mais uma vez podeis beijar os pés ao papa, ficareis com a boca abençoada para mentir melhor. Explorados, escolhei o crime, escolhei a mentira. Sois livres. Tu poeta, range os dentes e indigna-te.

2. Que o Estado venere a Deus na figura do papa, que os partidos venerem o Estado na figura do papa; que os explorados venerem a Deus, o Estado, o Partido – a trindade omnipresente. Enfim, o poder temporal subordinado ao poder sobrenatural. Nem Deus nem senhor? Maldita incurável doença infantil do comunismo. Explorado, escolhe o explorador.

3. O Estado que te submete é republicano e reverencia a Igreja, o Partido em que militas é marxista e felicita o papa, o Sindicato onde estás inscrito é revolucionário e saúda a reacção. A greve geral é uma arma que não deve ferir o papa. Nada contra o obscurantismo. Paz ao inimigo. Quem disse que a religião é o ópio do povo? Explorados, que escolheis?

4. Sobretudo, nada de escândalo. Uma pedra branca sobre o crime, uma pedra negra sobre a crítica. Ecrasez l’ infâme, dizia Voltaire. O silêncio dos ateus é o ouro do Vaticano. Explorado, escolhe a pedra para a tua cabeça.

5. Conquistar a liberdade de expressão para não usar a liberdade de expressão. Não denunciar o opressor, não ousar atirar-lhe à cara a revolta, sequer na forma de um cravo. Ver, ouvir, receber o papa com o medo do 24 de Abril. Explorado, porque não vomitas?

6. Explorado, sê manso e obedece. Pode ser que entres no reino dos céus, de camelo ou às costas de um rico. Obedece. Pode ser que vás para a cama com a pátria. Obedece. Pode ser que o teu cadáver ainda venha a ser estandarte glorioso do Partido. Nunca percas a esperança, explorado, jamais.

7. Abaixo a união livre. Viva a coexistência pacífica. O casamento do capital e do trabalho vai ser o grande casamento do século. Não haverá oposição dos pais nem da polícia. Sobretudo, tudo menos a erotização do proletariado. Felicidades, explorado.

8. Ouvi falar da luta de classes e da revolução e do mundo que o proletariado tem a ganhar e nada a perder. Ouvi falar das armas da crítica e da crítica pelas armas. Ouvi falar em transformar o mundo e mudar a vida. Ouvi falar de que enquanto um homem, um só que seja, e ainda que seja o último, existir desfigurado, não haverá figura humana sobre a terra. Nunca tinha ouvido uma sereia assim. Ouviste, explorado?

9. O diálogo? Que diálogo pode haver entre o condenado à morte e o carrasco que o conduz ao patíbulo? O diálogo é entre amantes, entre amigos, entre camaradas. Fora disso não há diálogo. Tens a palavra, explorado.

António José Forte 

In: jornal “A Batalha” – Lisboa. – Ano IX, VI série, Nº 90 (Dez. 1982)
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publicado por uon às 15:55 | link do post

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