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        O episódio que relato hoje é, tão-somente, um pequeníssimo grão de areia no cosmo do ano da brasa do PREC, na medida em que não tem qualquer relevo histórico actual, pese embora a relativa importância que teve na altura, até porque naquela circunstância tudo tinha interesse e os nossos olhos ainda não estavam cobertos de ramela, nem tampouco estávamos mordaçado por inércia e comodismo. Assim, a 3 de Março de 1975, faz agora 39 anos, realizou-se uma manifestação anarquista que desfilou «desorganizadamente» pelas ruas de Lisboa, entre o Rossio e a Praça de Espanha. Perante o olhar curioso de alguns mirones especados, uma centena de militantes libertários empunhando bandeiras negras e cartazes e gritando «palavras de ordem, algumas delas até com um certo humor», arrancou da Praça de D. Pedro IV e botou os pés ao caminho para um «passeio» de «contestação anarca».

    Socorrendo-me dos garatujos dos meus cadernos de apontamentos a fim de avivar a memória, eis algumas dessas satíricas palavras de ordem vozeadas ao vento pelos anarcas: “Ruim Por Ruim Vota em Mim!” (é preciso lembrar que as eleições iriam decorrer no mês seguinte), “Mao Gagá, a Anarquia Vencerá!”, “José Estaline Com Batatas Fritas!”, “À Portuguesa Só Conhecemos o Cozido!” (por causa da célebre questão ideológica do “socialismo à portuguesa” ou da “via portuguesa para o socialismo”), “Espanha-Portugal, Revolução Sexual!”, “O Galo de Barcelos ao Poder!” (em contraponto ao “Poder do MFA”) e “Se o Trabalho Dá Saúde, Mortos Que Estais no Cemitério Ide Trabalhar!”(sátira à máxima salazarista de que «o trabalho dá saúde»).
    Durante o trajecto, trupe que trupe, ao sabor da ocasião e dos acontecimentos, os anarcas deram azo ao seu corrosivo humor e notória capacidade de improviso. Quando se cruzaram com uma igreja entoaram, então, uma jocosa “Ave-Maria” em alta grita, como gente dispensada de ganhar o céu. Porém, na Rua do Salitre, defronte do Consulado do Estado de Espanha, a mãe do ditador Francisco Franco foi também trazida à colação e brindada com impropérios, a par de «inúmeras provocaçõezinhas da praxe». Para marcar a vertente internacionalista da anarquia, a agência da Ibéria – Líneas Aéreas de España, no Marquês de Pombal, foi apedrejada e o mesmo sucedeu ao edifício do Banco Fonsecas & Burnay, na Avenida Fontes Pereira de Melo, simbolicamente lapidado à pedrada para vincar a costela anticapitalista dos manifestantes.
    Ao chegar ao cabo da Praça de Espanha, onde uma unidade do MFA fazia guarda de mamelucos à embaixada castelhana, os anarcas bradaram mais uma das suas pérolas, “Nem Mais Um Só Chaimite Para o COPCON!”, um arremedo de outro lugar-comum dos maoistas. Aqui, devido à proximidade com a Fundação Calouste Gulbenkian, saiu espontaneamente a parte-gaga de “Abaixo a Cultura, Viva a Agricultura!”. Nos cruzamentos, rotundas e em todas as vielas por onde passaram, os passeantes anárquicos atrapalharam deliberadamente o trânsito na convicção que «a prioridade de passagem era deles», apesar de, ciosos como marajás, nunca se apresentarem pela direita.
    Na ocasião, o Movimento Libertário Português distribuiu um comunicado a dizer assim e assado, donde respigos estas partes: «Esta manifestação tem um carácter internacionalista. Não se identifica com a luta de nenhum partido de esquerda e extrema-esquerda, cujo objectivo é a defesa da Pátria e a reforma do capitalismo nacional através da substituição dos actuais partidos pelo Estado procurando construir formas mais subtis de exploração do Homem pelo Homem. O Capitalismo de Estado tal como acontece em países como a Rússia, China, Albânia, Cuba, Vietname do Norte e outros».
 
leia o resto aqui
 

http://abril-de-novo.blogspot.pt/2014/03/coisas-e-loisas-do-prec-manifestacao.html

 
 

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publicado às 16:37


Capturar

 

Mas, sem os trabalhadores eles não eram ricos.

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publicado às 16:21

Porque não é pagavél a dívida

por uon, em 05.03.14

 

Não há “uma única circunstância histórica" em que as políticas de austeridade tenham conduzido ao fim do pesado fardo de dívida

                                    Ashoka Mody, ex- chefe de missão do FMI na Irlanda

 

Sumário

 

Conclusões

1 - A dívida é um instrumento de domínio.

2 – A geminação entre os Estados e os capitalistas

3 - Portugal – Cenários de continuidade no pagamento da dívida

3.1 – A continuidade pró-ativa e radical (Hipótese I)

            3.2 – A continuidade pró-ativa amortecida (Hipótese II)

            3.3 – A continuidade prolongada (Hipótese III)

4 – Avaliação das parcelas da dívida a não pagar

5 - Como sair disto?

 

Em qualquer das seguintes ligações:

 

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/03/porque-nao-e-pagavel-divida-publica.html

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publicado às 15:51

Os Estados Unidos ofereceram hoje à Ucrânia mil milhões de dólares (cerca de 726 milhões de euros) no quadro de um empréstimo internacional, anunciaram funcionários de alto escalão após a chegada a Kiev do secretário norte-americano de Estado, John Kerry.

tao bonzinho este kerry

E quanto é que vai buscar ou Kerry

 

 

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publicado às 16:45

Guerra à guerra! Nem uma única gota de sangue pela “nação”!

Declaração internacionalista contra a guerra na Ucrânia




A luta pelo poder entre os clãs oligárquicos na Ucrânia ameaça transformar-se num conflito armado internacional. O capitalismo russo pretende utilizar a recomposição do poder no Estado Ucraniano de maneira a satisfazer as suas aspirações imperiais e expansionistas de longa data sobre a Crimeia e o leste da Ucrânia, onde detém fortes interesses económicos, financeiros e políticos.
Prevendo a próxima crise económica iminente, o regime tenta alimentar o nacionalismo russo para desviar a atenção dos problemas socio-económicos da classe trabalhadora que estão em crescimento: salários e pensões de miséria, o desmantelamento dos serviços de saúde existentes, a educação e outros sectores da área social. Com a explosão da retórica nacionalista e militante é mais fácil concluir a construção de um Estado autoritário e corporativo assente em valores conservadores reaccionários e em políticas repressivas.


Na Ucrânia, a crise económica e política aguda levou ao acentuar do confronto entre “velhos” e “novos” clãs oligárquicos e os primeiros utilizaram mesmo formações ultra-direitistas e ultra-nacionalistas para provocarem um golpe de Estado em Kiev. A elite política da Crimeia e do Leste da Ucrânia não tenciona partilhar o seu poder e os seus bens com os próximos dirigentes de Kiev e para isso julgam contar com a ajuda do governo russo. Ambos os lados recorreram a uma crescente histeria nacionalista, respectivamente ucraniana e russa. Tem havido confrontos armados e sangue derramado. As potências ocidentais têm os seus próprios interesses e aspirações e a sua intervenção no conflito poderia levar a uma Terceira Guerra Mundial.
A guerra entre chefes de grupo faz, como tem sido hábito, que lutemos entre nós, pessoas comuns – trabalhadores assalariados, desempregados, estudantes, aposentados… -,  pelos seus interesses. Embebedam-nos com a droga nacionalista, põem-nos uns contra os outros, fazendo-nos esquecer as nossas reais necessidades e os nossos interesses: não temos nada que nos preocupar com as suas “nações” quando temos problemas mais importantes e urgentes – como acabar com o sistema que eles encontraram para nos escravizar e nos oprimir.
Não vamos cair na embriaguez nacionalista. Que vão para o inferno com os seus Estados e as suas nações, as suas bandeiras e as suas sedes! Esta guerra não é nossa e nós não devemos cair nela, pagando com o nosso sangue os seus palácios, as suas contas bancárias e o prazer de se sentarem nas fofas cadeiras do poder. E se os chefes em Moscovo, Kiev, Lviv, Kharkov, Donetsk e Simferopol começarem esta guerra o nosso dever é resistir por todos os meios!


Não à guerra entre “nações” – Não à paz entre as classes !

KRAS, secção russa da Associação Internacional dos Trabalhadores
Internacionalistas da Ucrânia , Rússia, Moldávia, Israel, Lituânia, Roménia, Polónia
Federação Anarquista da Moldávia
Fracção dos socialistas revolucionários (Ucrânia)
(aberto à assinatura de outros colectivos…)

aqui: http://www.aitrus.info/node/3616

(Tradução para português retirada daqui:
http://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2014/03/03/comunicado-conjunto-de-varias-organizacoes-internacionalistas-da-russia-ucrania-e-moldavia-sobre-os-nacionalismos-russo-e-ucraniano/)

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publicado às 16:24

(Enquanto Kiev considera a intervenção russa na Crimeia como uma declaração de guerra, os anarcosindicalistas ucranianos dizem que é preciso uma intervenção do proletariado internacional para evitar a guerra. Consideram que o imperalismo russo, agora com Putin à frente, deseja anexar todo o território ucraniano e que uma frente conjunta proletária, ucraniana e russa, poderia fazer colapsar os regimes de Putin e do neoliberalismo ucraniano. São momentos de grande tensão estes que se vivem nos territórios ucranianos onde a presença e a cultura russas são mais fortes.)

 

http://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2014/03/02/ucrania-sobre-a-intervencao-russa-na-crimeia/

Comunicado sobre a intervenção russa na Crimeia

No dia 27 de Fevereiro de 2014 os chauvinistas pró-russos da Crimeia, apoiados pela Berkut (unidade especial da polícia, ndt) e pela Frota Russa do Mar Negro deram um golpe militar na Crimeia. Neste momento já é óbvio que o governo do movimento “Unidade russa”, liderado por Aksionov, não é mais do que um fantoche do regime do Kremlin.

Não consideramos a integridade e a inviolabilidade das fronteiras territoriais da Ucrânia como um valor, somos contra a “pacificação” violenta da Crimeia, mas julgamos que o estatuto da Crimeia deve ser definido tendo em conta a opinião da minoria tártara da Crimeia .

Os últimos acontecimentos mostram que Putin não vai se vai limitar a querer a anexação da Crimeia. O objectivo do regime imperialista do Kremlin é estender as práticas russas a todo o território da Ucrânia.

Por ser assim, o regime russo já provou ser a principal ameaça para os interesses do proletariado na área pós-União Soviética .

Somos adversários da guerra e do militarismo e consideramos que na actual situação os proletários conscientes não podem confiar em ninguém a não ser em si próprios.

Não há qualquer vantagem em esperar uma “intervenção de resgate” da NATO . Os políticos nacionalistas ucranianos só podem organizar, na melhor das hipóteses, a defesa de uma parte do território. A guerra só pode ser evitada se os proletários de todos os países, em primeiro lugar ucranianos e russos , assumirem em conjunto uma posição contra o regime criminoso de Putin.

A acção conjunta do proletariado ucraniano e russo e de todas as forças democráticas progressistas, que poderá pôr fim ao regime de Putin , significará também o fim do actual regime nacionalista marcadamente neoliberal na Ucrânia.

Entretanto já está na hora dos esquerdistas e anarquistas do Ocidente cortarem os laços com o chamado “anti-imperialismo” que se resume apenas ao apoio ao regime de Putin contra os Estados Unidos.

Nem guerra entre as nações, nem paz entre as classes!

2 de Março de 2014

Organização Autónoma de Trabalhadores (Ucrânia)

aqui: http://avtonomia.net/2014/03/02/awu-statement-russian-intervention-uber-die-russische-intervention-erklarung-der-autonomen-union-der-arbeiterinnen-kiev/

 

Não deixa de ser caricatural a nato/cee/ue/usa estar a fazer ameaças a rússsia em termos economicos quando estas organizações tudo tem feito em outros países para controlar  outros povos e submete-los as suas regras e ditames.

A nato/usa tem atacado outros povos como o iraque, afeganistão, libia, siria jugoslavia, etc e tem feito guerras em todo o lado desde a 2ª guerra mundial, nao tem autoridade para estar a criticar a russia quando fazem o que querem em todo o mundo.

Sejam russos ou ocidentais/usa/cEE/UE devem ser reprovados pelos povos.

 

 

 

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publicado às 16:01

Cartaz da F.O.R.A Argentina

por uon, em 01.03.14

http://capital.fora-ait.com.ar/2014/02/afiliate-y-participa-2/

 

fora 1

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publicado às 18:49

Cronstadt1917

Kronstadt é uma fortaleza naval situada numa ilha que serve tradicionalmente de base à frota naval da Rússia para proteger a cidade de São Petersburgo (que será baptizada Petrogrado durante a primeira guerra mundial, depois Leninegrado, depois de novo São Petersburgo) e que fica a 35 milhas da cidade

 

http://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2014/03/01/fev-marco-de-1921-a-revolta-dos-marinheiros-de-kronstadt-contra-o-terror-bolchevique/

mapa1

“Todo o poder aos sovietes e não aos partidos”

A revolta de Kronstadt começa nos primeiros dias de Março de 1921.

Os marinheiros de Kronstadt foram a vanguarda das acções revolucionárias de 1905 e de 1917. Em 1917 Trotsky designava-os como “o valor e a glória da Rússia revolucionária”. Os habitantes de Kronstadt foram, desde muito cedo, apoiantes e executantes do “todo o poder aos sovietes”, formando uma comuna livre em 1917, relativamente independente das autoridades. Praticando a democracia directa a partir de assembleia ou comités de base. No centro da fortaleza, um espaço público enorme servia de fórum popular podendo acolher mais de 30 000 pessoas. Os habitantes de Kronstadt estavam habituados a organizarem-se eles próprios.

A guerra civil russa acabou em Novembro de 1920, no este da Rússia, com a derrota do general Wrangel na Crimeia. Através de toda a Rússia  explodiam protestos populares no campo e nas cidades. Os levantamentos rurais tinham como alvo a policia do partido comunista que requisitava cereais. Nos sectores urbanos, surgiu também uma vaga de greves e em Fevereiro explode uma greve geral em Petrogado.

 

A 26 de Fevereiro, em resposta a estes acontecimentos em Petrogrado, a tripulação dos navios “Petropavlovsk” e “Sevastopol” têm uma reunião de urgência e põem-se de acordo para enviarem uma delegação á cidade para se informarem e fazerem um relatório sobre o movimento grevista. No regresso, dois dias depois (a 28 de Fevereiro), informam os seus camaradas marinheiros das greves (com as quais têm total simpatia) e a repressão que o governo dirige contra elas. Os participantes nesta reunião realizada no navio “Petropavlovsk”  aprovam então uma resolução com 15 reivindicações que incluem eleições livres para os Sovietes, liberdade de expressão, de imprensa, de reunião e de organização para os operários, os camponeses, os anarquistas e os socialistas de esquerda.

“Considerando que os sovietes actuais não exprimem a vontade dos operários e camponeses,

1º) proceder imediatamente à reeleição dos sovietes pelo voto secreto. A campanha eleitoral entre operários e camponeses deverá desenrolar-se com plena liberdade de expressão e acção;

2º) Estabelecer a liberdade de expressão e de imprensa para todos os operários e camponeses, para anarquistas e socialistas de esquerda (1);

3º) Dar liberdade de reunião aos sindicatos e às organizações camponesas;

4º) Convocar à margem dos partidos políticos uma Conferência dos operários, soldados vermelhos e marinheiros de Petrogrado, de Kronstadt e da província de Petrogrado para 10 de Março de 1921, o mais tardar;

5º) Libertar todos os prisioneiros políticos socialistas e também todos os operários, camponeses, soldados vermelhos e marinheiros presos em consequência dos movimentos operários e camponeses;

6º) Eleger uma comissão com o fim de examinar o caso daqueles que se encontram nas prisões e campos de concentração;

7º) Abolir os “comissários políticos” (2), pois nenhum partido político deve ter privilégios para a propaganda das suas ideias, nem receber do Estado meios financeiros para esse fim. No seu lugar devem-se instituir lugar comissões de educação e cultura, eleitas em cada localidade e financiadas pelo governo;

8º) Abolir imediatamente todos os postes de controlo («zagraditelnyé otriady») (3)

9º) Uniformizar as rações para todos os trabalhadores, excepto para aqueles que exercem profissões perigosas para a saúde;

10º) Abolir os destacamentos comunistas de choque em todas as unidades do exército, assim como a guarda comunista nas fábricas e oficinas. Em caso de necessidade, esses corpos de guarda podem ser designados pelo exército para as companhias e nas oficinas e fábricas pelos próprios operários;

11º) Dar aos camponeses o direito de trabalharem as suas terras da maneira que desejarem, bem como o direito de possuírem gado, na condição de que eles mesmos executem as suas tarefas, isto é, sem recorrerem ao trabalho assalariado;

12º) Designar uma comissão móvel de controlo;

13º) Autorizar o livre exercício do artesanato, sem emprego de trabalho assalariado;

14º) Pedimos a todas as unidades do exército e também aos camaradas kursanty (4) que se juntem à nossa resolução;

15º) Exigimos que todas as nossas resoluções sejam largamente publicitadas pela imprensa.

*

Petrichenko

Fotografía de Stepan M. Petrichenko alguns meses depois da sua participação na revolta de Kronstadt. Presidente do Comité Revolucionário Provisório, membro da tripulação do Petropavlovsk e um dos líderes da insurreição de Kronstadt. Morreu na prisão, na União Soviética, em 1947.
http://fr.wikipedia.org/wiki/Stepan_Petrichenko

Entre as 15 reivindicações apenas duas poderiam ser associadas àquilo que os marxistas gostam de classificar como “pequena burguesia” (camponeses e artesãos) ao exigirem “plena liberdade de acção” para todos os camponeses e artesãos que não utilizem trabalho assalariado. Como os operários de Petrogrado, os marinheiros de Kronstadt exigiam a igualdade de salários e o fim dos postos de controlo que limitavam a liberdade de circular e a capacidade dos operários trazerem alimentos para as cidades.

Teve lugar uma reunião com quinze ou dezasseis mil pessoas na praça principal a 1 de Março e ficou claro o apoio à resolução do Petropavlovsk, aprovada depois da delegação de “procura de informações” ter redigido o seu relatório. Só dois funcionários bolcheviques votaram contra a resolução. Nesta reunião ficou decidido enviar uma nova delegação a Petrogrado para explicar aos postos de controlo e à guarnição da cidade as reivindicações de Kronstadt e para exigir que delegados independentes fossem enviados pelos operários de Petrogrado a Kronstadt para se informarem directamente do que ali estava a acontecer. Esta delegação de trinta membros foi travada pelo governo bolchevique.

No momento em que a reunião do Soviete de Kronstadt estava a terminar, foi também decidido apelar a uma “conferência de delegados” para o dia 2 de Março. Devia-se aí discutir a forma como se realizariam novas eleições para os sovietes.

A conferência será composta por dois delegados das tripulações de cada navio, das unidades do exército, dos trabalhadores do porto, das oficinas, dos sindicatos e dos estabelecimentos do Soviete (Conselho). Esta reunião de 303 delegados aprova a resolução de Petropavlovsk e elege “um Comité Revolucionário Temporário” de cinco pessoas (este será alargado para 15 membros dois dias mais tarde aquando de uma outra conferência de delegados).

Este comité será encarregue de organizar a defesa de Kronstadt, um movimento decidido em parte pelas ameaças dos funcionários bolcheviques (e das práticas conhecidas dos bolcheviques) e do rumor, que se revelará sem fundamento, de que os bolcheviques teriam enviado forças para atacar a região. Kronstadt, a vermelha, levanta-se contra o governo comunista/marxista e lança o slogan da revolução de 1919 “todo o poder aos Sovietes (Conselhos)”, ao qual foi acrescentado, dada a evolução das condições políticas, a frase “e não aos partidos”. Eles chamarão a esta revolta “a terceira revolução” e concluirão os programas das duas primeiras revoluções russas instituindo uma verdadeira república de trabalhadores baseada em eleições livres, uma exigência imperativa, para os Sovietes/conselhos.

O governo comunista responderá com um ultimato para o 2 de Março. Eles afirmarão que a revolta “tinha sido seguramente preparada pela contra-espionagem francesa”  e que a resolução de Petropavlovsk é uma resolução dos Socialistas-Revolucionários de direita, bem como de reaccionários. Dirão também que a revolta é organizada pelos oficiais ex-czaristas dirigidos pelo ex-general Kozlovsky (que, ironicamente, tinha sido colocado na fortaleza, enquanto especialista militar, por Trostky). Foi esta oficialmente a resposta do partido bolchevique a toda esta revolta e a estas reivindicações.

Durante a revolta, Kronstadt começa a se reorganizar de baixo para cima. Os comités sindicais foram reeleitos e foi formado um Conselho dos Sindicatos. A conferência dos delegados reúne-se regularmente (especificamente a 2, 4 e 11 de Março) para discutir as alternativas que tinham a ver com os interesses de Kronstadt e a luta contra o governo bolchevique. As bases comunistas existentes em Kornstadt abandonarm o partido, expressando assim o seu apoio à revolta e ao seu objectivo de “todo o poder aos sovietes e não aos partidos” Cerca de 300 comunistas foram presos e tratados de forma humanitária na prisão (em comparação, pelo menos 780 comunistas deixaram o partido em protesto contra as medidas tomadas contra Kronstadt e o seu papel na revolução). De maneira significativa, um terço dos delegados eleitos pela conferência rebelde de Kronstadt, a 2 de Março, eram comunistas.

A revolta de Kronstadt era não-violenta, mas desde o princípio a atitude das autoridades terá como ponto de partida o ultimato e não a negociação séria. Com efeito, os bolcheviques publicitaram a ameaça que eles disparariam sobre os rebeldes “como sobre perdizes” (Trotsky) e tomaram como reféns as famílias dos marinheiros em Petrogrado. Já no fim da revolta, Trotsky recusa a utilização de armas químicas contra os rebeldes, mas se eles não tivessem sido esmagados, o ataque de gás teria tido lugar. Não foi feita nenhuma tentativa real para responder à revolta duma forma pacífica. Ainda que antes do gelo poder ser quebrado tivessem que passar pelo menos três ou quatro semanas depois da reunião de delegados de 2 de Março, quando se realiza a “conferência” que vai marcar verdadeiramente o princípio da revolta, os bolcheviques começaram as operações militares às 6.45 pm do dia 7 de Março.

E havia meios que possibilitavam uma resolução pacífica do conflito. A 5 de Março, dois dias antes do começo do bombardeamento de Kronstadt, os anarquistas com Emma Goldman e Alexandre Berkman à frente, ofereceram-se como intermediários para facilitar as negociações entre os rebeldes e o governo bolchevique (a influência anarquista tinha sido forte em Kronstadt em 1917). Mas isso foi ignorado pelos bolcheviques. Anos depois o bolchevique Victor Serge (que foi testemunha ocular dos acontecimentos) reconhecia que “mesmo quando o combate já tinha começado, teria sido fácil evitar o pior: tinha sido suficiente aceitar a mediação oferecida pelos anarquistas (Emma Goldman e Alexandre Berkman) que tinham contactos com os insurrectos. Por razões de prestígio e um excesso de autoritarismo, o Comité Central recusa esta oportunidade”.

Uma outra solução possível, a sugestão do soviete de Petrogrado de 6 de Março de que uma delegação de membros do partido e de membros sem partido, mas membros do soviete, visitem Kronstadt, não foi seguida pelo governo. Os rebeldes, sem surpresa, tiveram reservas quanto ao verdadeiro estatuto dos delegados sem partido (mas do conselho, isso por desconfiarem de manipulação sobre os membros eleitos democraticamente, já uma prática comum na época) e exigido que tivessem lugar eleições para delegados nas fábricas, com a presença de delegados de Kronstadt (em si mesma uma exigência muito razoável). Nada veio daí (sem surpresa, pelo facto de que uma tal delegação teria relatado a verdade de que a revolta de Kronstadt era uma revolta popular de gente trabalhadora, ao mesmo tempo que ficariam visíveis as mentiras bolcheviques e o ataque armado que estava previsto seria mais difícil). Uma delegação “enviada por Kronstadt para explicar a situação ao Soviete de Petrogrado, cairá nas prisões da Tcheka” (Victor Serge – Memórias dum revolucionário – pag. 127). A recusa em seguirem estes caminhos possíveis para uma resolução pacífica da crise explica-se pelo facto de que a decisão para atacar Kronstadt já estava tomada. Com base em documentos dos arquivos soviéticos, o historiador Israel Getzler declara que “a 5 de Março, senão mais cedo, os chefes soviéticos já tinham decidido esmagar Kronstadt. Deste modo, num telegrama s [un] membro do Conselho do trabalho e da defesa, nesse dia, Trostky insistiu no facto de que ‘somente a tomada de Kronstadt porá um termo à crise política em Petrogrado’. No mesmo dia, agindo enquanto presidente da RVSR [o Conselho Militar Revolucionário do exército e da marinha da República], mandou reforçar e mobilizar o sétimo exército ‘para suprimir o levantamento de Kronstadt’ no menor tempo possível.” (O papel dos Chefes comunistas na tragédia de Kronstadt de 1921 à luz dos documentos de arquivo recentemente editados”, la Russie révolutionnaire, pp 24-44, vol. 15, numero 1, junho 2002, P. 32]

Como assinala Alexandre Berkman, o governo comunista “não fará nenhuma concessão ao proletariado, ao mesmo tempo que se dispunham a comprometer com os capitalistas da Europa e da América” [Berkman, La tragédie russe, p. 62]. Ao mesmo tempo que se satisfaziam em serem dialogantes e comprometidos com os governos estrangeiros, trataram os operários e os camponeses de Kronstadt (aliás, como os do resto da Rússia) enquanto inimigos de classe (com efeito, desde logo, Lenin interrogava-se publicamente sobre se a revolta não seria uma espécie de pano de fundo para a existência de negociações!)

A revolta foi isolada e não recebeu nenhum apoio externo. Os operários de Petrogrado, em virtude da lei marcial, estavam bloqueados, pouco podiam fazer e nenhuma acção foi possível fazer para apoiar Kronstadt. O governo comunista começará a atacar Kronstadt a 7 de Março. O primeiro assalto foi uma derrota. “Depois do golfo começar a ter as suas primeiras vítimas”, Paul Avrich nota o facto de “alguns soldados vermelhos, incluindo um corpo de Cadetes de Peterhof (Peterhof Kursanty) passaram para os insurrectos. Outros recusaram avançar, apesar das ameaças da canhoneiras na retaguarda que tinham ordem de atirar sobre os hesitantes. O comissário do grupo norte assinala que as suas tropas quiseram enviar uma delegação a Kronstadt para saber quasi as exigências dos insurrectos” [ Avrich, pp 153-4 ]. Depois de 10 dias de ataque constante a revolta de Kronstadt foi esmagada pelo exército vermelho.

A 17 de Março seguiu-se o assalto final. E ainda nessa altura os bolcheviques tiveram que forçar as suas tropas a combaterem. Quando, por fim, entraram na cidade de Kronstadt “as tropas atacantes vingaram-se com uma orgia de sangue pelos seus camaradas caídos”. [ Avrich, p. 211 ]. No dia seguinte, numa ironia da história, os bolcheviques celebram o 50º aniversário da Comuna de Paris.

As forças soviéticas tiveram mais de 10 000 mortos em Kronstadt. Não há nenhum número fiável quanto ao número de rebeldes mortos ou quantos foram executados pela Cheka mais tarde ou enviados pata os campos de prisioneiros. Os números que existem são fragmentários. Logo a seguir ao esmagamento da revolta, 4836 marinheiros de Kronstadt foram presos e enviados para a Crimeia ou para o Cáucaso. Quando Lenin é informado deste facto a 19 de Abril expressa grandes receios e eles serão, por fim, enviados para campos de trabalho obrigatório nas regiões de Archangelsk, de Vologda e de Mourmansk. Oito mil marinheiros, soldados e civis conseguem escapar através do gelo para a Finlândia. As tripulações do Petropavlovsk e do Sébastopol combaterão até ao fim, bem como os cadetes da escola de mecânica, do destacamento de torpedos e da unidade de comunicações. Um comunicado estatístico publicado a 1 de Maio refere que 6528 rebeldes foram presos, 2168 foram executados (33%), 1955 foram condenados a trabalho obrigatório (dos quais 1486 por apenas cinco anos) e 1272 serão libertados. Uma análise estatística da revolta, feita em 1935/36 situou o número de presos na ordem dos 10026 e refere que “não foi possível estabelecer com exactidão o número de punidos”. As famílias dos rebeldes foram expulsas para a Sibéria, considerada “seguramente a única região apropriada” para eles.

Depois da revolta ter sido sufocada, o governo bolchevique reorganizou a fortaleza. Ainda que ele tenha atacado a revolta em nome do “poder aos sovietes”, o novo comando militar designado para Kronstadt “abolirá totalmente o Soviete de Kronstadt” e reorganiza a fortaleza “com a ajuda duma troika revolucionária” (quer dizer, um comité de três homens designados). [ Getzler, p. 244 ]. O jornal de Kronstadt ser renomeado “Krasnyi Kronshtadt” (d’Izvestiia) e anunciará, em editorial, que “os dispositivos fundamentais” da “ditadura do proletariado” foram reconstruídos em Kronstadt, sendo “as suas fases iniciais” simplesmente “restrições da liberdade politica, o terror, o centralismo e a disciplina militar e o encaminhamento de todos os meios e recursos para a criação dum aparelho ofensivo e defensivo do Estado. .” [ citado por Getzler, p. 245 ]. Os vencedores começaram rapidamente a eliminar todos os traços da revolta. A praça central tornou-se “praça revolucionária” e os couraçados rebeldes Petropavlovsk e Sébastopol foram rebaptizados Marat e Comuna de Paris, respectivamente.

Notas:(1):Socialistas revolucionários de esquerda
(2):Secções políticas do partido comunista que existiam na maior parte das instituições do Estado.
(3):Destacamentos policiais criados oficialmente para lutar contra a agiotagem, mas que no fim de contas confiscavam tudo o que a população esfomeada, incluindo os operários, traziam dos campos para consumo pessoal.
(4):Cadetes

Traduzido e adaptado daqui: http://fra.anarchopedia.org/Cronstadt

Ver: Diário de Alexander Berkman

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publicado às 17:47

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