Sexta-feira, 13 de Abril de 2018

 

chile-uma-reflexao-critica-sobre-o-anarquismo-em-1

 

No fundo o que companheiro chileno fala em baixo é o que se passa em Portugal. O problema é que falta uma organização anarquista/sindicalista, etc que dê corpo aos nossos problemas. O Chile também não tem nada organizado. Existem uns grupos que fazem umas coisas avulsas durante um tempo e depois acaba. Depois volta tudo ao principio criando novos grupos que fazem outra coisas e acabam como começam. Por isso é que urge criar alguma coisa que fique, que nos defenda, que intervenha na sociedade. Uma coisa que sido positiva são as chamadas feira do livro anarquista em vários locais (Lisboa, agora no Porto, etc) que pelos vistos vieram para ficar e tem resultado. Se conseguimos realizar feira do livro também conseguiremos criar outras coisa que fiquem e intervenham no dia-a-dia.Reflitam!!

 

por Felipe Chavarria

O anarquismo é um movimento amplo com uma infinidade de interpretações que têm os seguintes preceitos em comum. As e os anarquistas acreditam na livre associação, entendida como a construção de acordos livres sem a intervenção de chefes ou líderes. Acreditamos na construção de uma sociedade horizontal na qual as pessoas são equivalentes entre si. Propomos tolerância em relação aos outros, uma vez que acreditamos que todos podem viver como quiserem sem explorar ou subjugar outros e outras. Nós nos organizamos através da autogestão, entendida como uma forma de organização na qual são organizados os indivíduos que devem buscar soluções para necessidades como habitação, saúde e educação.

Apesar destes preceitos, o movimento anarquista não quis ser uma alternativa real aos diferentes conflitos sociais, uma questão que tenho observado ao longo dos 17 anos que eu estive envolvido neste movimento em vários grupos em Santiago. Essa deficiência pode ser verificada em diferentes elementos que compartilho e analiso abaixo.

Um primeiro elemento que se percebe é que o movimento anarquista não quis ser uma alternativa real aos diferentes conflitos sociais é o próprio fato de que falar de “movimento” não é real. Cada vez que tentam coordenar os diferentes coletivos e grupos, são boicotados internamente, seja por grupos ou por indivíduos. Por isso, as e os anarquistas permanecemos dispersos e mal organizados. A falta de organização e coordenação entre grupos e indivíduos tem impedido um trabalho de longo prazo que nos permita articular uma ação coerente com a nossa fala. Isso faz com que sejamos reativos aos conflitos sociais e estejamos constantemente improvisando soluções que não têm base na construção de um trabalho sólido, mas no máximo em discussões internas que ocorrem em diferentes grupos. Além disso, muitas vezes a falta de trabalho real acaba por transformar os poucos grupos em espaços de discussão quase puramente intelectuais.

Um segundo elemento é o atomismo que ocorreu no movimento nos últimos 10 anos. Este atomismo levou-nos a um ponto em que até mesmo formar pequenos grupos de 5 ou 10 pessoas envolve um esforço titânico, devido à incapacidade de aceitar diferenças de pensamento entre as e os indivíduos – embora o anarquismo defenda a tolerância quase absoluta pela diferença em sua essência ideológica. Essa incapacidade de negociar internamente tende a levar os poucos grupos à atomização, reduzindo suas já poucas capacidades. A atomização chegou a um ponto que beira o ridículo. Um exemplo disso é que chamamos de “editorial” para o que na realidade é um(a) companheiro(a) editando um livro. Não entenda mal o exemplo: é preciso reconhecer que o trabalho individual desses companheiros/as permitiu preencher uma lacuna em relação ao material de leitura disponível. Cerca de 10 ou 12 anos atrás, os livros, que muitas vezes eram fotocópias, eram poucos e passavam de mão em mão até que o desgaste os tornava quase ilegíveis. Deve ser entendido que usei este exemplo apenas para mostrar a atomização da qual falo.

Outro elemento é a falta de trabalho real, que muitas vezes acaba desmobilizando os companheiros e companheiras. Essas pessoas acabam optando por levar uma vida “normal” por causa da falta de resultados. Se pensarmos que o início da militância ocorre aproximadamente aos 14 ou 15 anos, quando você atinge 30 anos já dedicou metade de sua vida a um “movimento” que dá pouco ou nenhum resultado. Isso definitivamente desmotiva a maioria. De fato, há consideravelmente menos companheiros/as que têm mais de 30 anos de idade do que aqueles que estão na casa dos 20 anos e que têm algum grau de participação mais ou menos ativa. Essa desmobilização também prejudica o “movimento”, já que não permite a transferência de experiências. Hoje os e as companheiros de 18 e 20 anos sabem mais sobre a Espanha de 1936 do que sobre o que o anarquismo tem sido no Chile nos últimos 30 anos, seus erros, sucessos, repressão, etc.

Um quarto elemento é a falta de recursos. Isso é evidente e se acentua devido à juventude do “movimento”. Se considerarmos que a maioria da militância é entre 16 e 24 anos, são poucos que podem contribuir, e se considerarmos que somente aos 30 anos, em média, um grau de estabilidade econômica é atingido, o quadro se torna mais complicado ainda, já que, como eu disse antes, nessa época, a maioria dos companheiros e companheiras aposentou-se do que poderíamos chamar de participação ativa. Isto é evidenciado pela quase inexistência de espaços anarquistas, o quinto elemento que resulta na incapacidade do movimento anarquista de ser uma alternativa real para enfrentar conflitos sociais.

A quase inexistência de espaços impediu a retirada de grupos quando há uma onda de repressão ou quando as organizações são diminuídas por outras razões. Então, a falta de espaço impediu o grupo de fazer um trabalho de longo prazo. A maioria usa espaços emprestados ou okupados. Com o primeiro, existe o risco de que o proprietário, seja uma pessoa ou um grupo, não goste do que está sendo feito com o espaço e, com este último, o risco de despejo é permanente.

Embora não haja receitas mágicas para resolver os problemas do “movimento”, acho que posso afirmar que a primeira coisa de que precisamos é a vontade daqueles que se sentem parte dele. Dos jovens de 14 ou 15 anos aos de 30 e 40 anos, aqui não sobra ninguém. Companheiras e companheiros, todos têm o seu grão para contribuir: tempo, trabalho, experiências ou recursos. Se realmente acreditamos que o anarquismo pode fornecer uma resposta aos diferentes conflitos sociais em que vivemos, devemos ser capazes de superar os obstáculos, romper com o atomismo e construir acordos para construir um caminho comum e amplo que nos permita fortalecer os trabalhos existentes e criar novos.

Fonte: http://revistalamarraqueta.cl/articulos/politica/una-reflexion-critica-sobre-el-anarquismo-en-santiago-de-chile/



publicado por uon às 15:15 | link do post

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