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Por vezes surge a versão que o aparecimento do Partido Comunista em Portugal estaria ligado ao impacto que teve a revolução russa  e a criação da União Soviética, nomeadamente entre os anarquistas e anarcosindicalistas. Segundo estas versões teria sido algo “natural”, que coincidiu também com a divulgação das obras de Marx e Lenin no nosso país e que tudo se teria processado de forma tranquila. Não foi assim. Desde logo, porque a militância comunista rapidamente se sectarizou e infiltrada nos sindicatos da CGT tentou por todos os meios quebrar, muitas vezes pela força, a influência anarco-sindicalista no seio operário. Outras vezes também, através do recurso à força e a métodos já considerados na época como “fascistas”. Exemplo disso é este manifesto – de 1922 –  repudiando a morte às mãos de elementos do PCP de um operário que terá aderido ao partido, mas depois terá querido sair e isso terá sido a justificação para a sua eliminação física. O comunicado, escrito na Prisão do Limoeiro, é assinado por mais de duas dezenas de sindicalistas revolucionários ali detidos e constitui um libelo acusatório contra as práticas sectárias do PCP, fundado no ano anterior como secção portuguesa da Internacional Comunista. CLE

Manifesto aos trabalhadores conscientes

CAMARADAS:

É após uma análise aturada à situação social revolucionária do nosso pais, que nós somos constrangidos a vir a público, dar parte de uma resolução algo importante por nós tomada, pois que ela é o início de uma nova era de processos de camaradagem e solidariedade entre as duas modalidades distintas – Marxismo, hipocritamente encoberto com a mascara de Comunismo, e Comunismo libertario.

Com origem em dissidências e personalismos, e numa contenda de princípios filosófico-sociais, fundou-se em Portugal um partido politico denominado: Partido Comunista.

Este Partido, cujas bases assentam nas teorias marxistas e que tende á conquista do poder politico-estatal, entravando por esta forma a marcha da Revolução que aspira á conquista da integra emancipação humana e á supressão de todo o principio de autoridade, alberga no seu seio individuos de caracter duvidoso, cujo proceder tem dado ensejo a merecer a mais completa repulsa de todo o trabalhador consciente.

Sabemos que nessa facção politica existem indivíduos cuja intenção é boa. Contudo, reconhecemos que estão mal colocados, pois se encontram fora do seu campo de acção.

Sucede isto, pelo facto desse partido se acobertar sob a bandeira do comunismo, atraindo por esta forma bastantes camaradas incautos, que julgam vêr nele uma força revolucionaria, suficiente a preparar a Revolução num curto espaço de tempo.

Porem a força das circunstancias e a própria ideologia do Partido teem evidenciado a incapacidade deste em fazer algo de concreto pela emancipação do proletariado, tendo começado já as divergências e as desilusões.

A provar esta nossa asserção está o facto do nosso desditoso camarada Manuel Maria, filiado nesse partido, que reconhecendo o campo falso em que estava colocado teve a consciência de regressar ao campo sindicalista revolucionário, o que ocasionou o seu assassinato infame por um bando de facínoras que, ainda não satisfeitos com isto, não tendo saciado a sua sede de sangue, teem ameaçado de morte camaradas nossos por terem tido a lealdade de verberar o seu procedimento.

Outros há, que querendo seguir o exemplo de Manuel Maria, o não teem feito, talvez pelo seu receio de serem victimas do sectarismo dessas criaturas, cujo procedimento ignóbil se assemelha aos «fascistas» italianos, pois o seu fito não é outro senão o desmantelamento da organização operária.

Poder-nos-hão objectar que o Partido Comunista não pode ser responsável pela obra criminosa e demasiadamente cobarde que uma reduzida meia dúzia de malucos impunemente vem realisando.

Mentira! Respondemos nós, que pela causa revolucionaria proletariana temos sacrificado o nosso bem estar, a nossa saúde e a própria Liberdade por tempos infinitos.

O Partido Comunista não repudiando até hoje o assassinato do nosso inolvidável camarada, provou insofismavelmente a sua abjecta cumplicidade num crime tam hediondo. Os miseráveis acobertam-se sob a sua bandeira, e o Partido Comunista não ousa escorraçar das suas fileiras essa malta miserável, sem nobresa nem ideal, ralé desprezível, incapaz dum gesto que dignifique, mas disposta a praticar as mais degradantes baixesas humanas.

Em face do que acabamos de narrar, é num indignado assomo de revolta que nós sindicalistas revolucionários presos por delicto social, de dentro desta masmorra nos dirigimos a vós, para ponderardes bem na obra de vil traição que estes indivíduos estão executando e definirdes qual a sua situação perante a massa trabalhadora consciente.

Por nossa parte, desde já constatando a maneira deslial e indigna como teem procedido, publicamente declaramos ter tomado as seguintes deliberações:

Tomar na devida consideração aqueles que fazendo parte desse Partido, já estivessem presos á data do atentado a Manuel Maria;

recusar a nossa camaradagem e solidariedade a quaisquer indivíduos que continuem fazendo parte dessa organização;

repudiar todo o auxilio moral e material que nos queiram prestar os mesmos indivíduos, visto eles serem nossos inimigos e o seu obulo vir manchado com o sangue dum camarada que baqueou victima da paixão cega dos neo-comunistas convertidos em “fascistas”;

afirmar a nossa inabalável crença no Ideal anarquista, reconhecendo o Sindicalismo revolucionário como único meio de luta para a  sua efectivação.

Abaixo os traidores!

Abaixo os «fascistas» portugueses!

Viva o Comunismo libertario!

Cadeia do Limoeiro, 1 de Novembro de 1922

Os sindicalistas revolucionários presos por delito social,

Manuel Vieira
Antonio Joaquim Pato
Avelino de Castro
Raul dos Santos
Antonio Manuel Vinhais
Artur Gonçalves
José Agostinho das Neves
José Gordinho
Manuel de Castro Simões
Alvaro Damas
Carlos Correia
Manuel Ramos
Manuel Viegas Carrascalão
Quirino Fernandes
José d’Almeida Figueiredo
Fernando Pedro Candido
Salvado de Matos Filipe
Pedro de Matos Filipe
Candido Rodrigues Mendes
José Bernardino dos Santos
Francisco Luiz
Francisco Costa
Albano Costa
José Rodrigues Pereira
Estevão Azenha
José Rodrigues
João Nunes
Joaquim Pita
Jaime de Campos
Sebastião Vieira
Joaquim Fernandes Talhadas
António Soares Branco
José Lopes
Joaquim Mendes
Urbano Alves
Manuel João
Antonio Torres
Henrique Rolim Ramos
Antonio José d’Almeida
José Nunes dos Santos
Sebastião da Costa Brito
Bernardino Sebastião Paiva
Antonio Chagas
Bernardo Costa
Bernardo Montes
Antonio Louça
Dionildo Novais
Francisco de Oliveira
José Vicente
Joaquim Pedro
José Maria da Silva

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publicado às 16:08




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