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LIBERDADE E BEM ESTAR

LIBERDADE E BEM ESTAR

Para comemorar o 18 de janeiro de 1934

18.01.19, uon

Para comemorar o 18 de janeiro de 1934, comunicado aparecido https://1969revolucaoressaca.blogspot.com/2019/01/1974-01-18-o-que-foi-em-1934-o-18-de.html#more

O QUE FOI EM 1934 O “18 de JANEIRO”?

 

Panfleto dedicado à memória do Mário Castelhano e Arnaldo Simões Januário, dois destacados militantes anarquistas, assassinados no Campo do Concentração do Tarrafal por terem cometido o "crime" do organizar a greve revolucionária de 18 DE JANEIRO 1934

A nova Direcção da liga do ensino e da Cultura Portuguesa de Londres, motto - para, uma cultura popular - decidiu, e 

O QUE FOI EM 1934 O “18 de JANEIRO”?

A nova Direcção da liga do ensino e da Cultura Portuguesa de Londres, motto - para, uma cultura popular - decidiu, e 

A nova Direcção da liga do ensino e da Cultura Portuguesa de Londres, motto - para, uma cultura popular - decidiu, e acertadamente, comemorar a data do 18 de Janeiro, talvez porque, segundo um panfleto distribuído pelo correio aos sócios da liga; "Esta data que é das mais gloriosas da História do Movimento Operário em Portugal é infelizmente pouco conhecida da grande massa do povo português".

No entanto, esse panfleto, que é um extracto da descrição de José Gregório, antigo militante do Partido Comunista Português que tomou parte nesses acontecimentos, nada faz para aliviar a ignorância da grande massa do povo português, visto nele poder-se somente ler em termos poucos factuais o que aconteceu no dia 17 do Janeiro, deitando José Gregório as culpas do fracasso deste levantamento popular em Portugal, que foi esmagado pelo ataque das forças militares do Regimento de Infantaria 7, Artilharia, da P.S.P., da G.N.R. e da P.I.D.E. vindo de Leiria, "no ataque inesperado que foi possível porque se fizera o erro de não cortar imediatamente, uma das linhas telefónicas que ligavam a estação dos correios a Leiria".

Felizmente que existe nos anais do Movimento Operário em Portugal uma outra versão menos obscurantista dos acontecimentos de 18 de Janeiro, esta escrita por Edgar Rodrigues, militante anarquista que hoje vive no Brasil.

A fim de ajudar a nova Direcção da Liga do Ensino e da Cultura Portuguesa a desenvolver, de uma maneira não adulterada, o seu programa "Para uma Cultura Popular", transcrevemos a seguir na sua totalidade, a versão do nosso companheiro Edgar Rodrigues, que em termos claros o concisos, desmistifica as forças políticas do Stalinismo em Portugal, que por razões sectárias e demagógicas fizeram que os factos sobre o "18 de Janeiro" "data que é das mais gloriosas da História do Movimento Operário em Portugal sejam infelizmente pouco conhecidos da grande massa do Povo Português".

 

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AS LUTAS SUBTERRÂNEAS DOS SINDICALISTAS E ANARQUISTAS E O TRABALHO NEGATIVO DOS BOLCHEVISTAS PORTUGUESES (1926-1934)"

  1. l)  A ditadura suspende o diário "A BATALHA", órgão da C.G.T. e ordena o assalto e encerramento dos Sindicatos Operários.

Com a vitória de um grupo de militares insurrectos, e cumplicidade do Governo-Relâmpago de Mendes Cabeçadas, foi implantada a ferro e a fogo o actual regime fascista português.

O atentado contra Luiz Dorouet, por um gaseado da guerra a quem havia demitido como funcionário da Biblioteca Nacional, foi o pretexto para a Polícia, assaltar e encerrar a publicação do "A Batalha", órgão diário da Confederação Geral do Trabalho (CGT), isto é, dos trabalhadores apolíticos. Os sindicatos foram também fechados, assim como a sede da CGT, porém, graças a um movimento de protesto, conseguiram reabrir, embora sob a mira policial. Era o começo do fim do sindicalismo livre. Fracassada a revolução do 3 do Fevereiro de 1927 contra a situação criada pela revolução do 28 de Maio do 1926, o aliado o chefe desta, General Gomes da Costa, o governo investe-se de poderes totalitários e principia a prender, deportar e espancar liberais de todas as correntes.

Cresce a revolta popular, e os novos mandatários aumentam os quadros da Policia Política através da ralé, dos assassinos e ladrões que haviam servido a polícia por ocasião da efémera Monarquia do Norte. Apesar de tudo isso, os anarquistas e sindicalistas tiveram ainda liberdade para publicar alguns jornais, como "Vanguarda Operaria", "Germinal" (no Porto), "A Batalha" (em Lisboa), além de milhares de panfletos. Em Setembro de 1929, no Porto, o grupo anarquista que havia publicado "A Vida", depois "Aurora", e, mais tarde, "A Comuna" apresentava agora a "Aurora" em revista mensal, dirigida por Abílio Ribeiro.

2) De 1932 a Janeiro de 1934, os trabalhadores sofrem os mais duros ataque da nova ditadura.

SALAZAR, que já ocupara o cargo de Ministro da Fazenda na ditadura implantada em 1926, assim como na própria República, não tardou a ser imposto como ditador, tomando posse deste cargo em 5 de Julho de 1932.

O seu primeiro "milagre" para equilibrar as finanças, foi o assalto à bolsa do trabalhador português, na forma de imposto, a título provisório, o desconto de 2% sobre os salários dos operários, com a designação de Fundo de Desemprego. Num dos artigos do decreto respectivo, formula-se esta "garantia" salazarista: "Os trabalhadores obterão auxílio ou trabalho, seis meses após sua inscrição no Comissariado do Desemprego. Ora, qual é o operário que logra manter-se seis meses desempregado? Morreria de fome antes de ser socorrido! Por tal motivo nunca se escreve. Depois, dificílimo, senão impossível, e para o salariado, descobrir onde fica a sede do Comissariado do Desemprego. Assim o dinheiro escamoteado ao proletário serve apenas para construir as obras de fechada.

Ante os rumores do primeiro assalto planejado por Salazar a magra economia popular para "equilibrar as finanças", os trabalhadores organizados fizeram deflagrar uma greve que, apesar da paralisação (especialmente no Norte de Portugal) de algumas fábricas, resultou na prisão de muitos trabalhadores, e finalmente fracassou. A ditadura venceu pelas armas o trabalhador desarmado. Os bolchevistas não tomaram parte nesse movimento, aceitando com a sua indiferença, o roubo salazarista.

Na luta contra a ditadura, a CGT, já na clandestinidade, imprime e distribui, por intermédio dos seus sindicatos federados, folhetos de protesto. Em 1932 aparece um destes contra as arbitrariedades praticadas nas minas de São Pedro da Cova (Porto) com o título “Vozes do Subsolo, que vem a superfície da terra a reclamar Justiça".

Para fazer fronte as violências governamentais a CGT e a FARP (Federação Anarquista da Região Portuguesa) prepara, em suas fileiras, homens capazes de enfrentar o ataque final do ditador, apesar de já enfraquecidos pelo desfalque da grande quantidade de militantes que haviam sido deportados. Esperava-se que Salazar vibrasse o golpe final contra os trabalhadores, dado os rumores de que novas leis, segundo se dizia trazidas da Itália fascista, iam ser postas em prática.

Ainda no desastroso ano de 1933, promulga o ditador a nova Constituição, a reforma do exército, da aviação, da Justiça (Estatuto Judiciária, Código do Processo Penal, Código de Falências, Reforma Prisional), reaparelha-se a Polícia e aumentam-se os seus efectivos, constitui-se a "União Nacional" (Partido Único), a Legião Portuguesa (de cujas fileiras saíram os tristemente célebres "Viriatos, que em 1936 invadiram a Espanha para ajudar a implantar naquele país fascismo franquista), a Mocidade Portuguesa (arremedo dos “balilas” italianos) e aumentam-se os quadros do funcionalismo, especialmente militar (oficiais superiores); procede-se à depuração em todos os quadros do funcionalismo nos postos chaves do governo e entra em vigor a lei da rolha ou do silêncio, a lei de censura prévia à imprensa.

Estas foram as medidas preliminares, que vieram aplainar o terror e garantir a publicação das leis ns. 23.048 e 23.050 de 23 de Dezembro de 1933, a primeira criando o Estatuto do Trabalho e o seu órgão director, o Instituto Nacional do Trabalho, que regularia toda a actividade das classes trabalhadoras, e a segunda que permitia o assalto aos sindicatos livres, tornando-os, como hoje são, joguetes do Estado. A 18 do Janeiro de 1934, entraria em vigor a lei que desfecha a o "tiro de misericórdia" nos organismos operários, já praticamente controlados pelo Estado totalitário.

A Federação Anarquista da Região Portuguesa (FARP), aderente à Federação Anarquista Ibérica (FAI), prestando inteiro apoio à CGT, reafirma em milhares de manifestos a sua decisão de lutar contra o fascismo. A Federação Operária Portuguesa (socialista) e a Comissão Inter-Sindical (comunista) tinham-se comprometido a lutar ao lado da CGT, a mais poderosa Central dos Sindicatos livres. Acertados todos os meios de combate, foi escolhida a madrugada de 18 de Janeiro de 1934 para o desfecho da greve geral revolucionária em que participariam todas as forças do proletariado. O Comité revolucionário enviou a todas as organizações comprometidas a senha combinada na véspera. Mas tal não aconteceu! Por sua vez os políticos divididos pelas ambições em torno da escolha de pastas, ficaram na cama, à espera que a ditadura caísse por si. É assim o movimento fracassou, porém a mais importante causa do fracasso deve-se, ao traiçoeiro golpe dos bolchevistas, que, sempre hábeis nessas manobras, fizeram explodir, na véspera, uma bomba, no Poço do Bispo, populoso bairro de Lisboa. Foi o autor desse desastrado acto, Ernesto José Ribeiro, operário poceiro, membro do Partido Comunista, que veio a morrer no Tarrafal. Na Povoa de Santa Iria, também na véspera do dia marcado para a eclosão da greve geral, foram provocados descarrilamentos pelos bolchevistas. Estes acontecimentos serviram para alertar a polícia, que imediatamente ocupou militarmente a capital. Como estava decidido, o movimento eclodiu às 4 horas da madrugada do dia 18, simultaneamente em diversos lugares do país, tomando características mais violentas na Marinha Grande e em Coimbra. Em Lisboa, em "estado de sítio" desde a véspera, devido à traição dos bolchevistas, o proletariado nada pode fazer. Os ferroviários e os operários da imprensa diária de Lisboa, comprometidos no movimento, não poderam manifestar-se em consequência da ocupação militar da cidade.

Em Coimbra, os sindicalistas tomaram a Central Eléctrica, o que forçou a paralização de todas as indústrias; e na Marinha Grande os revoltosos travaram combate com a força da Guarda Republicana, apoderando-se do quartel.

Fracassada a tentativa de greve geral revolucionária, os bolchevistas ainda tiveram a covardia e a desvergonha de vir a público negar a sua participação no movimento, declarando que o seu partido comunista preferia esmagar a CGT e os militantes libertários (como tentaram fazer na guerra civil de Espanha, onde foram os principais factores da derrota) do que combater a ditadura. E a ilustrar o seu gesto repugnante, classificaram o movimento de "ANARQUEIRADA TERRORISTA", precisamente eles, que haviam sido os autores dos actos do terror atrás relatados.

Se outras provas não tivéssemos, estas, que vieram a público através de panfletos e das colunas do "Avante" (órgão moscovita), bastariam para por a nu a sua, política de ziguezagues, o seu cacoete jesuítico.

Nos dias agitados que sucederam ao 18 de Janeiro, com espancamentos e prisões em massa de anarquistas e sindicalistas, os bolchevistas intensificaram, de acordo com as ordens recebidas de Moscou, os ataques contra os libertários, para mais os comprometerem. O "Avante", em artigo intitulado "Salazar", proclamava: "Os comunistas não pretendem atentar contra a vida de Salazar. Isso só poderá ser obra dos anarquistas", palavras igualmente repetidas quando do atentado a Salazar. Os bolchevistas, dirigidos então por Bento Gonçalves, ao se    lançarem contra os anarquistas a quem tinham jurado fidelidade no movimento, não faziam mais que cumprir as consignias de Lenine (*), que sentenciara de morte as organizações livres, (*) Lenine ditara esta sentença de morte ao movimento operário: "A missão da forma não é convencer, mas dispersar as filas dos adversários, não melhorar os seus defeitos mas aniquilar a sua organização e a sua actividade, extirpa-las da Terra. A forma deve ser tal que incite aos piores pensamentos e à suspeita, e leve o caos e a desorientação às fileiras do Proletariado".

Cabe salientar aqui a coragem e a firmeza ideológica de ARNALDO SIMÕES JANUÁRIO, militante anarquista de Coimbra, que, diante dos algozes da PIDE reclamou para si a inteira responsabilidade pelo acontecimento da greve revolucionária de 18 de Janeiro de 1934. O gosto do operário barbeiro de Coimbra veio a público por intermédio da imprensa burguesa, que não sabendo, ou não querendo distinguir anarquistas dos bolchevistas, ignorância e leviandade caracteriza, apresento-o como "comunista". Em verdade, Arnaldo Simões Januário, que veio a morrer no Tarra­fal, foi um dos principais organizadores daquele movimento, para cuja eclosão trabalhara com outros destacados militantes libertários num velho moinho de Caneças - arredores de Lisboa, - onde funcionava uma tipografia clandestina da Federação Anarquista da Região Portuguesa, que imprimiu os boletins de propaganda que então apareceram a público e, mais tarde descoberta e apreendida pela polícia.

Januário, valente e dinâmico militante anarquista, foi um dos que mais trabalhara para derrubar a tirania que ainda hoje pesa sobre o povo português e que os sequazes de Moscou tem, tanto ou mais do que a Igreja e a própria polícia, ajudado a manter.

Já em 1931 aparecia na "Vanguarda Operária", do Porto, pela pena do seu director, José Augusto de Castro, um artigo em que este tratava de "cavalgaduras" os bolchevistas, porque estas "asnos" haviam arremessado sapatos velhos sobre o conhecido militante anarquista Manuel Joaquim de Sousa (por vários anos director de ”A Batalha” e secretario geral da CGT, quando o mesmo pronunciava uma conferencia no Porto, com o objectivo de interrompe-lo.

Outro testemunho da colaboração dos bolchevistas para consolidar e até implantar a actual ditadura, encontra-se em nota elucidativa ao livro do escritor francês Pierre Bernard "Os sindicatos e a Revolução Social tradução de Francisco Quintal, onda se lê; "em 28 de Maio de 1926, com o advento da ditadura militar, para terem o prazer de derrubar um adversário político ("o comunismo libertário a Esquerda Democrática, os Partidos "Comunistas" e "Socialistas", tentando abusivamente o apoio da organização operária, não tiveram pejo em aliar-se com a reacção e o militarismo. Só a Confederação Geral do Trabalho (CGT) e a União Anarquista Portuguesa lutaram desde o início contra, a nascente ditadura."

Haja vista nos nossos dias, os bolchevistas sempre aliados à reacção e aos ditadores só pelo prazer de derrotar os seus opositores mais esclarecidos. Os bolchevistas do Brasil têm dado exemplos espectaculares neste sentido, como o apoio do decadente Prestes a Getúlio Vergas, logo que o líder bolchevista saiu da prisão.

Como exemplo típico dessa nefanda do bolchevismo temos o caso de Cuba, nesse país inicialmente apoiando a Ditadura de Batista e posteriormente a de Fidel de Castro.

 

EDGAR RODRIGUES

"O RETRACTO DA DITADURA PORTUGUESA" Editora Mundo Livre Rio de Janeiro - 1960.

Do mesmo autor:

NA INQUISIÇÃO DE SALAZAR - Rio de Janeiro 1957 - Esgotado

A FOME EM PORTUGAL - Rio de Janeiro 1959

HISTÓRIA DO MOVIMENTO OPERÁRIO NO BRASIL.

NACIONALISMO E CULTURA SOCIAL.

 

NEM DEUS,

NEM MESTRE,

NEM PARTIDO!

 

Se estás interessado em literatura anarquista escreve para O CLARÃO (Publicação de textos anarquistas)

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